Cãomenagem
O cocô do cachorro francês
Dra.Cássia Vidigal Ferraz
Acabo de chegar em Paris e pela primeira vez caminho por
uma calçada francesa, absolutamente decidida a não
cometer nenhuma gafe e não envergonhar a minha pátria-amada-idolatrada-salve-salve.
É cedo e neva. Eu não sabia que a neve pisoteada
vira um sabão escuro onde
Escorrego apesar de sóbria. Estou pelo menos seis
quilos mais encorpada devido às roupas, luvas, botas,
casaco, cachecol, capuz, bolsa, pochete, mapas, prospectos,
passes, máquina fotográfica, guarda-chuva,
etc., etc., etc.
E lá vai a almôndega titubeante, numa marcha
de pata choca, palmilhando gloriosa as avenidas desertas.
E lá vem pinpão um teen francês numa
motoca muito da mixuruca.
Mas esse menino só anda em cima da calçada!
E VRUM! VRUM! Atravessa a rua e sobe em outro passeio e
estaca e continua e pára em segue e eu fico injuriada
com essa juventude transviada, pois esse mundo está
perdido e drogado. É o apocalipse!
E eu já estou derrapando direto nesta maldita neve
derretida, botando os bofes pela boca carregando toda essa
tranqueira, e se esse moleque vier obstruir o meu caminho
eu vou tomar uma atitude!
E não deu outra! Foi pensar e acontecer!
Ele cruzou a rua e veio ao meu lado me afrontar com esse
VRUM! VRUM!
Nunca fui covarde, portanto incontinenti empinei o meu
dedo indicador direto no seu nariz gaulês e discursei
em bom e fluente português. Lavei a alma e despejei
o saco. O enunciado foi eloqüente, mas até hoje
desconfio que ele não entendeu nada.
Enfim...após longas e conturbadas desventuras cheguei
à casa dos meus amigos...para descobrir, ao relatar
a minha saga repleta de peripécias peripatéticas,
que existe um serviço público de lixeiros
motoqueiros, que trafegam pelas calçadas de Paris
aspirando (por um mecanismo acoplado ao cano de escapamento)
os cocôs dos cachorros.
N.R. – Se você possui um cãozinho (ou
cãozão) de estimação e passeia
com ele pelo seu bairro, quando ele fizer seu cocôzinho
(ou cocozão), cate-o e jogue-o não no canteirinho
das arvores, mas na próxima lixeira (há tantas
hoje em dia). Seu gesto será muito bem recebido pela
sua cãomunidade, além de uma boa, prática
e econômica forma de exercício físico,
ao abaixar-se e levantar-se para recolher o dito cujo objeto
desta crônica. Piu Piu